sábado, 9 de abril de 2011

História, Presente e Utopias

Quem fez faculdade de História, por muitas vezes já teve de responder a pergunta sobre “Qual a sua função?” As vezes, a pergunta é ainda mais enfática - e por vezes desdenhosa da profissão - como: “Para que serve a História?” Na minha formatura, o Professor Paraninfo de minha turma, homem inteligente e perspicaz que nos encantou com o brilhantismo de sua aula, refez essa pergunta, afirmando nem ele saber a resposta. Porém, complementou dizendo que deve ser muito grande e importante, pois os grandes governantes a usam para se constituírem e a afrontam, destruindo suas raízes educativas e formativas a fim de não caírem do pedestal que ergueram com sua ajuda.

Com base nisso, poderia dizer que a história é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que fere o inimigo, crava sua lâmina no utilizador. Um grande exemplo são as formações dos grandes Estados Nações e de seus governantes, e por muitas vezes de seus ditadores. A História é utilizada no caráter de forjar sua construção, mas logo depois é deixada de lado, esquecida, alijada de proventos básicos, para que não haja construção de saber crítico, e portanto aquela instituição ou instituidor não seja assim questionado em sua atitudes ou derrubado por falta delas. Outro exemplo é o que ela faz conosco, historiadores, pessoas que se apaixonam por seus encantos e que dedicam a sua vida a escrevê-la, pesquisá-la e analisá-la. Ao mesmo tempo em que dedicamos parte do nosso tempo ao saber que nos proporciona, mais nos encantamos, mais gostaríamos de saber e de sentir, Logo, ao ferirmos uma proposição inicial, somos feridos pela idéia que nos ocorre. Somos mordidos pelos dentes da verdade e do engajamento e partimos em nossa saga argumentando e buscando razões para crer que o nosso ponto de vista é “verdadeiro”, quando a verdade é um mosaico desfocado que nunca apreenderemos por sua totalidade.

O mais importante de entendermos a respeito de nossa função é saber que lidamos com um passado irrecuperável. Analisamos fatos que não mudarão. Não criamos ou inventamos nada! Partimos de escritos, discursos, pedaços fragmentados de uma memória para tentar entender o que aconteceu e por que aconteceu. Nossa pergunta mestra é 'como chegamos aqui?' e 'por que ocorreu assim?'. E por isso não somos capacitados a analisar o presente, nem prognosticar o futuro – formado por continuidades e contingências, já nos dizia Gaddis, rupturas e conservação que não são previsíveis por mais que pareçam nos cercam e nos empurram para o inesperado. Porém, apesar de não podermos analisar ou escrever sobre o que acontece atualmente, percebemos que temos uma sorte única: Estamos vendo, e de modo muito consciente, a História acontecer no mundo, debaixo dos nossos narizes e no foco de nossas lentes e flashes. O mundo árabe se convulsiona em busca de democracia, o problema da energia nuclear japonesa que pode vir a se tornar uma Chernobyl em grande escala, ascensão de uma esquerda política no mundo, crise no sistema neoliberal que leva a uma emigração dos países ricos e um retorno dessa massa a seus países de origem ou a emergentes. O que está acontecendo? O que nós estamos pensando, escrevendo, analisando sobre isso?

Nada. Olhamos para trás, buscamos evidências no passado que culminou até aqui, porém em momentos como esses, quando direcionamos os olhos para frente temos a certeza que pessoas como nós, daqui a trinta anos, escreverão a respeito de tudo isso. O que nos incomoda é que a farão sem nunca conseguir apreender com precisão tamanha a que estamos vivendo. Mas saberão os impactos que isso tudo causou pelo nosso posicionamento.

O que sabemos? O mundo está se transformando. Para melhor ou pior? Não sei dizer, mas o planeta reage há anos de silêncio de modo forte. Pode ser uma nova mudança para conservação como diz Gramsci ou mesmo uma real convulsão que mudará tudo o que vemos hoje como normal. Mas é certo que todos nós, devemos refletir na necessidade de parar e pensar como vivemos e nossos ideais. Será que eles são realmente prováveis ou meras utopias? Como provar e agir?

2 comentários:

Bruno Lima Mota disse...

Mto boa está reflexão. A História é algo maravilhoso, cheio de mistérios e enigmas
Meus parabéns pela análise.

coral disse...

Maravilhosa esta reflexão. Continue escrevendo.Parabéns !!!!!!!

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